domingo, 22 de agosto de 2010

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Sabia haver mulheres muito mais bonitas que ela. Mulheres que não tinham manchinhas na ponta do nariz, nem o canto esquerdo da boca levemente mais alto que o direito. Mas sentia-se, naquele momento, extremamente sedutora. Não sem razão. Seu corpo magro e preciso envolvido pela firmeza da renda preta contrastando com sua pele alva e negros cabelos era sem dúvida sedutor. Não apenas a sedução superficial do pecado da carne, mas sim, e antes, a sedução do mistério. Seu corpo e expressão guardavam o envolvente fascínio daquilo que se oculta, mas que também se sugere. Sua presença parecia pronta a despertar em qualquer um alguma espécie de curiosidade receosa. Como se seu corpo e mente fossem algo proibidos, e por isso mesmo encantadores. Fora fácil decidir que roupa usar: a confiança que a visão de seu belo corpo refletido no espelho lhe dera, já decidira por ela muito antes de sabê-lo. Com movimentos exatos e decididos retirou do cabide o curto vestido preto sem alças. Ela iniciou passando seus pés para dentro do vestido, e com um gesto suave fê-lo subir até o seu quadril sem que encostasse em parte alguma de seu corpo. De repente, a distância entre eles se desfez, e o tecido surpeendido sentiu a pele perfumada e macia sobre o quadril de sua dona. Foi preciso que ela delicadamente o convencesse a deixar esse aconchego para finalmente repousar sobra a curvatura de sua cintura e seus seios. Fechando o zíper a suas costas, ela finalmente domou o vestido, que cumprira sua sina e seu desejo: adormecer tranquilo sobre a beleza de um corpo feminino. O perfume marcante com toque de ingredientes marinhos veio como consequência natural do seu estado de espírito e roupa daquele dia. Outro perfume não haveria de ser. Apenas ele transformaria em fragrância a confiança e liberdade que sentia.

"Puesto que una mujer que no sabe querer no merece llamarse mujer ". Veio-lhe a mente este trecho de música e soube então que estava pronta, pronta por inteiro. Os pensamentos diante do espelho somados a satisfação com seu próprio corpo completaram-na. Fizeram-na sentir-se mulher. Não que antes não se sentisse, porém dessa vez ela foi além: ela desejou tudo o que pudesse ter. Desejou a intensidade, principalmente. Desejou antes a paixão, ao amor.


Chegou à festa as onze e meia.Quase todos os convidados já estavam presentes, o que a desagradou porque teve que cumprimentar a praticamente todos eles. Em compensação, a decoração a contentou muito. O ambiente escuro, com poucas luzes em tom de vermelho e almofadas e carpetes no chão no lugar de mesas deixava o local aconchegante e sensual. Foi sentar-se com seus amigos. E a noite caminhou indiferente entre conversas leves e banais. Nessa leveza fútil que faz oscilar uma conversa do debate político da semana passada ao mais novo restaurante da Bela Cintra. Mas não! Não era isso que sua mente queria. Era por isso que seus olhos iam e vinham de um lado para o outro enquanto falava com alguém. Eles procuravam algo mesmo sem saber o que exatamente. Esperavam ainda pela surpresa da noite. Desejavam que algo acontecesse, que lhes desse não só a poder de ver, mas antes e principalmente, o poder de admirar.

B.

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