terça-feira, 31 de agosto de 2010


Uma delicada forma de calor - Lobão


"Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre mim

e logo hoje tudo isso vem à tona

e me parece cair como uma luva

agora no dia em que eu choro

eu tô chuvendo muito mais do que lá fora

lá fora é só água caindo

enquanto aqui dentro, cai a chuva


Enquanto ao que você me disse

eu me lembro sorrindo vendo você tão séria

tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo

e acabar indignada me achando totalmente impossível

talvez seja apenas isso...

chovendo por dentro, impossível por fora


Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar

como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível, tanta coisa diferente

sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada

e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente


E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida

sejam como eu

ou talvez porque você esteja

de repente assistindo muita televisão

e como um deus que não se ve-se nunca

como um deus que não se ve-se nunca

seu olhar não consegue perceber

como uma chuva, uma triteza podem ser uma beleza

e o frio uma delicada forma de calor."

L.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Norte

"Mas se nada do amor restou,
não se culpe pelo bem que fez.
Apenas não finja mais."

(Norte - ¡oye!)

sábio conselho de sarah abdala elias.
B.

domingo, 22 de agosto de 2010

Página 4


Sabia haver mulheres muito mais bonitas que ela. Mulheres que não tinham manchinhas na ponta do nariz, nem o canto esquerdo da boca levemente mais alto que o direito. Mas sentia-se, naquele momento, extremamente sedutora. Não sem razão. Seu corpo magro e preciso envolvido pela firmeza da renda preta contrastando com sua pele alva e negros cabelos era sem dúvida sedutor. Não apenas a sedução superficial do pecado da carne, mas sim, e antes, a sedução do mistério. Seu corpo e expressão guardavam o envolvente fascínio daquilo que se oculta, mas que também se sugere. Sua presença parecia pronta a despertar em qualquer um alguma espécie de curiosidade receosa. Como se seu corpo e mente fossem algo proibidos, e por isso mesmo encantadores. Fora fácil decidir que roupa usar: a confiança que a visão de seu belo corpo refletido no espelho lhe dera, já decidira por ela muito antes de sabê-lo. Com movimentos exatos e decididos retirou do cabide o curto vestido preto sem alças. Ela iniciou passando seus pés para dentro do vestido, e com um gesto suave fê-lo subir até o seu quadril sem que encostasse em parte alguma de seu corpo. De repente, a distância entre eles se desfez, e o tecido surpeendido sentiu a pele perfumada e macia sobre o quadril de sua dona. Foi preciso que ela delicadamente o convencesse a deixar esse aconchego para finalmente repousar sobra a curvatura de sua cintura e seus seios. Fechando o zíper a suas costas, ela finalmente domou o vestido, que cumprira sua sina e seu desejo: adormecer tranquilo sobre a beleza de um corpo feminino. O perfume marcante com toque de ingredientes marinhos veio como consequência natural do seu estado de espírito e roupa daquele dia. Outro perfume não haveria de ser. Apenas ele transformaria em fragrância a confiança e liberdade que sentia.

"Puesto que una mujer que no sabe querer no merece llamarse mujer ". Veio-lhe a mente este trecho de música e soube então que estava pronta, pronta por inteiro. Os pensamentos diante do espelho somados a satisfação com seu próprio corpo completaram-na. Fizeram-na sentir-se mulher. Não que antes não se sentisse, porém dessa vez ela foi além: ela desejou tudo o que pudesse ter. Desejou a intensidade, principalmente. Desejou antes a paixão, ao amor.


Chegou à festa as onze e meia.Quase todos os convidados já estavam presentes, o que a desagradou porque teve que cumprimentar a praticamente todos eles. Em compensação, a decoração a contentou muito. O ambiente escuro, com poucas luzes em tom de vermelho e almofadas e carpetes no chão no lugar de mesas deixava o local aconchegante e sensual. Foi sentar-se com seus amigos. E a noite caminhou indiferente entre conversas leves e banais. Nessa leveza fútil que faz oscilar uma conversa do debate político da semana passada ao mais novo restaurante da Bela Cintra. Mas não! Não era isso que sua mente queria. Era por isso que seus olhos iam e vinham de um lado para o outro enquanto falava com alguém. Eles procuravam algo mesmo sem saber o que exatamente. Esperavam ainda pela surpresa da noite. Desejavam que algo acontecesse, que lhes desse não só a poder de ver, mas antes e principalmente, o poder de admirar.

B.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Pequeno Príncipe e outras coisas mais


"- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?
- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.
- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar farão todos uma revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis."

(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)

"[...]Quem quer pouco, tem tudo;
Quem quer nada, é livre;
Quem não tem, e não deseja
Homem, é igual aos deuses."

(Fernando Pessoa)

ser reis razoáveis. isso acabaria com muita angústia. porque quase sempre ela vem de desejarmos, de nós e dos outros, o que nem eles nem nós mesmos podemos dar.
B.

...


O cansaço já tomava conta do corpo nu, que teimava em continuar ali, comprimido contra o canto da parede. Talvez nem houvesse tanto tempo, e realmente não havia, mas o frio tornava tudo um tanto quanto mais angustiante, fazendo-a quase desistir da espera.

Os pelos do corpo eriçavam em ondas de calafrio, fazendo-a temer a vergonha que sentiria caso alguém surgisse pelo corredor.

A porta do apartamento continuava fechada, assim como quando chegara ali. Não tinha certeza, mas teve a impressão que o insuportável barulho de lá vindo ainda continuava em ascenção. As músicas era indistiguíveis, interrompidas por gritos e gemidos em pranto.

Pensou em tentar a maçaneta, bater levemente na porta, chamar pelo seu nome... ou até mesmo gritar enlouquecida, implorar para que abrisse. Abrisse POR FAVOR.
L.

sábado, 14 de agosto de 2010

E nada mais.


Pois foi naquele momento que me perguntei... Naquele momento em que tudo se paraliza por um leve instante e os olhos se apresentam estáticos para não atrapalhar o turbilhão em que a cabeça engrena. O momento em que um arrepio involuntário percorre couro cabeludo, braços e pernas pelo simples reviver inesperado da situação acontecida. Pelo simples reviver da situação que nunca aconteceu, mas que deveria (Ah, como deveria!) acontecer. Pois foi naquele momento que me perguntei: Por quê?
L.

sábado, 7 de agosto de 2010



"Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um."



(Fernando Pessoa)



e quem ousa dizer que isso não é verdade?!

"pissoa" sempre surpreendendo com suas declarações sobre o que eu já sentia, mas não sabia.
B.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Rimas da Vida e da Morte - Amós Oz

"[..]Por um momento Rachel vai ficar imobilizada de tanto terror. Mas logo lhe virá uma calorosa centelha que dissipará o medo e ela quase se projetará a correr descalça até a porta trancada para espiar pelo olho mágico e abri-la antes que ele bata: Entre, entre, pois eu o estou esperando. Mas não. Ela não fará isso, porque foram mais que suficientes as decepções e ofensas e esperanças vãs pelas quais já passou, e ela está cheia de cicatrizes antigas dos tantos sonhos que se frustraram [...]"


Quem acha esse trecho a descrição exata do que se passa na mente de Amelie Poulain? Ela tem tudo pra se encontrar com Nino, o homem que sempre esperou encontrar, no entanto ela deixa sempre a oportunidade escapar. Não que ela não queira encontrá-lo, ela o quer, mas é como se ela já tivesse adquirido pelos " tantos sonhos que se frustraram" uma espécie de inércia que a impede de movimentar-se, de tomar uma atitude. Um medo por arriscar o novo, o desconhecido.


(É realmente muito mágico quando alguém consegue colocar em palavras aquilo que todo mundo sabe e sente, mas não conseguimos verbalizar.
Obrigada Amós.)
B.

Página 3


Todas essas idéias giravam em sua cabeça. E ela estava ali, esguia em frente ao espelho enquanto passava batom vermelho em seus lábios. Ato executado com calma não por cuidado com o contorno da boca que deveria seguir, mas sim por demência dos membros, que sem comando da mente, executavam tudo no mais simples despropósito. Ela era puro pensamento, pura alma. Tão entregue a tudo o que sentia que quando acordasse do transe em que se encontrava provavelmente não saberia o que acabara de pensar. Problema não haveria porém se não se lembrasse. Lembrar de tudo e organizar em frases prontas e parágrafos estáticos seria congelar suas idéias em pura racionalidade. Impossível. Isso porque era sentimento: sem ponto de partida ou chegada. Apenas era, sem ser traduzido ou entendido.
Pronto. Agora sim seu reflexo traduzia olhos realmente despertos, e eles indagavam à moça refletida: "O que acabara de pensar?". Foram alguns segundos estáticos passados em frente ao espelho, até que, como se lembrasse de algo, estremeceu ao olhar no relógio: era tarde. Seu corpo pálido, ainda nu, se apressou em tomar uma atitude, precisava se aprontar.
Começaria pelas roupas íntimas. Ajoelhada em frente à gaveta, ela carregava uma estranha perplexidade no olhar. Seria tão difícil escolher uma simples calcinha e sutiã? Qualquer outra pessoa com a alma mais aquietada o faria rapidamente, mas ela tinha um outro estado de espírito. Seu espírito se prendia à estranheza da minuciosidade, como se algo naquela noite pudesse acontecer e aquelas pudessem se tornar, quem sabe, as principais vestimentas da noite. Não que houvesse nela uma vontade incontida que a levasse à procura de alguém, mas ela precisava ter a certeza de que estaria pronta por inteiro. Precisava, para isso, da firmeza de um tecido que a abarcasse com a firmeza que ela própria deveria ter. Um tecido que além da firmeza ainda lhe presenteasse com a vaidade feminina indispensável para aquele momento. Foi então que a viu, ela era perfeita: a renda.
Delicadamente tirou calcinha e sutiã da gaveta e os colocou por um instante por sobre a cama. Depois de alguns segundos de contemplação, vesti-los seria o próximo passo. A calcinha deslizou suave pela coxa pálida e macia enquanto ganhava seu devido lugar. O sutiã de finas alças foi cuidadosamente posto, terminando de compor aquela visão. Ela gostava do seu próprio corpo e isso simplesmente por ser dela.
L.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010


Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector
"...Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida - com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfurmar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse o mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas - professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfurmar-se era um ato secreto e quase religioso."
L.

domingo, 1 de agosto de 2010

Página 2


Era no início que ela podia tudo. Não havia restrições. Não havia obstáculos, porque sequer havia um objetivo exato. Era apenas a simples alegria de sonhar. "Uma idéia que não tem a menor pretensão de acontecer". Era no ínicio que a pessoa amada vivia mais na imaginação que na realidade e por isso mesmo era tudo perfeito, mesmo que incerto. Dizer que não pensava na aproximação física entre eles seria mentira, mas isso não era uma obrigação. Ela adorava antes o sonhar, acordada e dormindo, com a vida que teriam juntos que a possibilidade do encontro dos corpos. Chegava mesmo a pensar que somente a paixão purificava o sexo.


No ínicio ela apenas sentia que chico buarque seria o poeta de todos os momentos que viveriam juntos. Não sabia, ainda, que mais tarde apenas lhe restaria a consciência de que chico buarque fora um dia o poeta de todos os momentos que viveram juntos. Era como ser criança novamente. Ela experimentava uma euforia diária pela simples presença do outro. Ele era seu novo brinquedo. Seu novo e preferido brinquedo. Um brinquedo que dentre todos os outros lhe proporcionava maior alegria, e por isso era levado a sério. Tratado com o que podia oferecer de melhor: sua doce e ingênua imaginação. A cada dia renovado pela sua idealização.Foi assim que ela entrou na maioria dos seus relacionamentos. Foi com sonhos despedaçados que saiu de todos eles também. Porém, ela não desistia. Pensava sempre que o rapaz de roupa legal e olhos pequenos virando a esquina poderia ser o escolhido. "Gostei de você. Acho que você gostaria de mim também". Mas a esquina era curta demais, e a vida demasiado rápida. Demasiado inconveniente.

B.