sexta-feira, 30 de julho de 2010

Daydream - The Lovin' Spoonful

http://www.youtube.com/watch?v=8kEjwm_me_s&feature=related


pensamento imediato ao ouvir essa música: a vida é boa afinal, não?
:D
B.

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

B.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

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Talvez fosse somente isso. Tudo o que ela queria era o início de uma nova conquista, a descoberta de um novo amor. Quando dois seres por algum acaso se atraem inexplicavelmente. Quando uma timidez inesperada surge e qualquer simples atitude se torna um incrível ato de aproximação. Quando uma alegria estranha e incerta toma conta do coração e rir ou chorar são apenas expressões naturais da volubilidade em que ela se encontra. E era isso. Apenas o início, sem dar continuidade a essa aproximação. Prolongar eternamente somente a conquista. Não que ela fosse do tipo que não se entrega, ou que carregasse o medo ingênuo de se entregar. Ela bem que já tinha feito aquilo por muitas vezes: dar um fim na conquista e se entregar ao ardente, porém passageiro, encontro dos dois corpos. Mas o que fazer depois? Como fingir não sentir o esfriar daquilo que outrora era tão ardente? E como não se decepcionar com isso? Foram muitas tentativas, e muitas decepções. Por isso apreciava o momento em que tudo o que a completava ainda era vivo: o início.

Era no início que a entrega era cogitada ser totalmente possível e eterna. Era no início que o fim nem cogitado era. Era no início que a mágoa ainda inexistia. Era no início que ele existia. Era no início que ela vivia.
L.