quarta-feira, 4 de agosto de 2010

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Todas essas idéias giravam em sua cabeça. E ela estava ali, esguia em frente ao espelho enquanto passava batom vermelho em seus lábios. Ato executado com calma não por cuidado com o contorno da boca que deveria seguir, mas sim por demência dos membros, que sem comando da mente, executavam tudo no mais simples despropósito. Ela era puro pensamento, pura alma. Tão entregue a tudo o que sentia que quando acordasse do transe em que se encontrava provavelmente não saberia o que acabara de pensar. Problema não haveria porém se não se lembrasse. Lembrar de tudo e organizar em frases prontas e parágrafos estáticos seria congelar suas idéias em pura racionalidade. Impossível. Isso porque era sentimento: sem ponto de partida ou chegada. Apenas era, sem ser traduzido ou entendido.
Pronto. Agora sim seu reflexo traduzia olhos realmente despertos, e eles indagavam à moça refletida: "O que acabara de pensar?". Foram alguns segundos estáticos passados em frente ao espelho, até que, como se lembrasse de algo, estremeceu ao olhar no relógio: era tarde. Seu corpo pálido, ainda nu, se apressou em tomar uma atitude, precisava se aprontar.
Começaria pelas roupas íntimas. Ajoelhada em frente à gaveta, ela carregava uma estranha perplexidade no olhar. Seria tão difícil escolher uma simples calcinha e sutiã? Qualquer outra pessoa com a alma mais aquietada o faria rapidamente, mas ela tinha um outro estado de espírito. Seu espírito se prendia à estranheza da minuciosidade, como se algo naquela noite pudesse acontecer e aquelas pudessem se tornar, quem sabe, as principais vestimentas da noite. Não que houvesse nela uma vontade incontida que a levasse à procura de alguém, mas ela precisava ter a certeza de que estaria pronta por inteiro. Precisava, para isso, da firmeza de um tecido que a abarcasse com a firmeza que ela própria deveria ter. Um tecido que além da firmeza ainda lhe presenteasse com a vaidade feminina indispensável para aquele momento. Foi então que a viu, ela era perfeita: a renda.
Delicadamente tirou calcinha e sutiã da gaveta e os colocou por um instante por sobre a cama. Depois de alguns segundos de contemplação, vesti-los seria o próximo passo. A calcinha deslizou suave pela coxa pálida e macia enquanto ganhava seu devido lugar. O sutiã de finas alças foi cuidadosamente posto, terminando de compor aquela visão. Ela gostava do seu próprio corpo e isso simplesmente por ser dela.
L.

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